quarta-feira, 26 de abril de 2017

Escola das Maravilhas

Atendendo minha paciente Alice. Não posso mudar ou omitir o nome porque a história depende disso.

- Você estuda onde, Alice?
- ...
- No País das Maravilhas?
- Quase isso. Só falta a diretora ser a rainha cabeçuda. Cortem as cabeças!
- E o Gato, é quem?...

Ela pensa por 10 segundos.

- O inspetor, que aparece de repente, do nada, com aqueles olhões, onde a gente está.

terça-feira, 4 de abril de 2017

De volta ao ambulatório

Estamos indo de volta pra casa...
Tralala lalá laláá la
Tralala lala láá

De volta ao ambulatório de Endocrinologia do Hospital Cardoso Fontes.

Primeiro paciente....
Paciente de primeira vez.
22 anos, encaminhado por estar em uso de Nebido. Nenhuma informação a mais.

Primeiro pré-diagnóstico: bomba para academia.

Chamo o rapaz. Ele entra.
Baixa estatura.
Segundo pré-diagnóstico: deficiência de GH com hipogonadismo.

- Tudo bem? Em que posso ajudá-lo?
- Eu cheguei ao Rio há 1,5 mês, e preciso continuar a usar Nebido.
- Vi no encaminhamento que você estava usando. Que tipo de tratamento você está fazendo?
- Eu sou trans.

I couldn't see it coming. Jamais teria imaginado se ele não tivesse dito.

O que, 1) foi um ponto positivo, porque não fosse uma consulta médica, eu não precisava ter imaginado, não precisava ter sido dito. Era um rapaz. E pronto.
No entanto, 2) também foi um ponto negativo, porque me mostrou na cara como um médico fora de um serviço de referência está desacostumado a pensar nessa possibilidade.

Prescrever o Nebido, fazer a hormonização, é a parte mais fácil da história. Mas a atenção em saúde para a pessoa trans precisa ser, necessariamente, multidisciplinar. Deve envolver, além do endocrinologista, uma equipe com atenção em Psicologia, Assistência Social, Urologia, Ginecologia, Cirurgia Plástica, e muitas vezes até mesmo profissionais do Direito.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Podologia tântrica

Paciente de 63 anos, diabético tipo 2 de longa data, em consulta de primeira vez comigo.

- Você sente dor, dormência, formigamento nos pés?
- Eu faço as unhas no podólogo, porque tenho medo de fazer eu mesmo...
- Um medo justo....
- Então... quando ele passa a lixa, eu sinto...
- ... dor?
- Não. Tenho uma sensibilidade forte, como um orgasmo.

Minha reação foi imediata:
- Esse podólogo é bom, hein?

Ele morreu de rir. Eu também.
Ainda bem.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Não se faz piada com doença

Em 04 de Janeiro de 1996 minha avó foi encontrada no chão de seu quarto desacordada. Tinha sofrido um AVE hemorrágico por rotura de um aneurisma cerebral. Sobreviveu durante 7 anos restrita ao leito, sem qualquer comunicação com o meio externo senão uns espasmos faciais que ora eram interpretados como dor, ora como algum tipo de compreensão por parte dela. Provavelmente eram movimentos involuntários sem maior significado. Minha avó morou em minha casa com equipe de homecare, com toda assistência de que ela precisava. Vez ou outra internava, mas passou a grande maior parte do tempo em casa conosco.

Desde que dona Marisa foi internada, recebi de grupos de Whatsapp diferentes as imagens de sua tomografia. Recebi piadinhas. Recebi compartilhamentos de textos sobre ela.

E lembrei da minha avó.

Minha avó foi professora e diretora de escola municipal.
Imagino se ela chega ao hospital e um médico de plantão é ex-aluno dela. Reconhece a professora. Envia para o grupo de Whatsapp de ex-alunos do colégio as imagens da tomografia dela. Apesar de ela ter sido uma pessoa formidável, imagino que uma diretora não seja unanimidade entre os alunos. Um ex-aluno lembra daquela vez em que ele foi suspenso (sem lembrar o porquê de ele ter sido suspenso). E completa se dizendo satisfeito de ela ter tido esse desfecho.

Imagino a troca de mensagens escapando às paredes virtuais do grupo. E sendo compartilhadas por aí afora. E chegando a mim, neto, à minha mãe, filha, à minha bisavó, mãe. Imagino o quanto tudo isso aumentaria ainda mais a nossa dor.

Um abraço derradeiro, dona Marisa.
Um abraço em toda a família, em todos os amigos, em todos os companheiros de luta.
Se for possível, abstraiam de tudo que se fala por aí. É difícil, eu imagino. E só fazem aumentar a dificuldade de uma hora dessas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Visita à enfermaria de Pediatria

Quarta-feira no fim da tarde resolvi fazer uma visita à enfermaria de Pediatria. Conversei com as mães e acompanhantes, conversei com as crianças (pelo menos com as que falam).

Na enfermaria de berços, cinco crianças.
Um menino de 2 anos com diabetes tipo 1 recém diagnosticado. Está sendo acompanhado pela Dra. Luciana Porto. Sabe, eu sou da Endocrinologia Pediátrica, mas estou na Direção do hospital. Se fosse uns meses atrás seria eu acompanhando o seu filho. Mas com a Dra. Luciana você está muito bem, que ela é ótima!

Uma menina de 5 meses internada há dois, nascida pequena para a idade gestacional, com 40 semanas, 39cm e 1800g. Por que será que a bebê PIGminha me chamou à atenção, né? A diferença entre ela e Letícia é que Letícia está recuperando o crescimento, e ela não. É tão miudinha! Outra diferença: bebê é carequinha, sem sobrancelhas e sem que Letícia está recuperando o crescimento, e ela não. É tão miudinha! Bebê acabou herdando umas roupinhas de Letícia que eu levei para doar no hospital.

Na enfermaria de camas, outras cinco crianças. Mais parecia um salão de jogatina do que uma enfermaria de hospital. Dos cinco, três estavam jogando joguinhos no celular.
Fui falar com o menino no leito do canto.
O que houve com você?
Levei um tiro.
E me contou a história. Estava atravessando a Grajaú-Jacarepaguá, passou um carro, um homem à janela abriu fogo e o acertou pelas costas. E tal e coisa e coisa e tal. Lá pelas tantas, Tio, ele me perguntou, você é polícia? Nãaaaaao, respondi, eu sou médico. Por quê? Você está fazendo tanta pergunta! Não não, sou médico, sou da Direção do hospital e estou fazendo uma visita. Mas posso contar sua história para a polícia... se você deixar. Eu deixo, tio.
O que você vai ser quando crescer?, eu perguntei. De uma da manhã ao meio-dia vou ser Urbe (sic). O que é Urbe, interrompi. Urbe! Motorista de Urbe. Aaaaaah tá... Uber. Então, tio... de uma ao meio-dia vou ser motorista de Urbe. De meio-dia às três da tarde, bombeiro. Das três às seis, polícia. E das seis até meia-noite, motorista de táxi. Mas rapaz, a que horas você vai comer, dormir, brincar com seus filhos...? É verdade, né, tio... acho que não vou ser motorista de táxi não. E cara, vamos rever isso aí, que não dá pra ser bombeiro de meio-dia às três. Ou você é bombeiro ou não é.

Pessoas. A gente não pode esquecer que o que a gente faz é pelas pessoas. Pelas vidas que estão ali. Tantas. Tão diferentes. Tão únicas.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Presente de Natal

2016 levou muita gente boa.
Os estertores de 2016 ainda ameaçam muita gente boa.
Mas na semana anterior ao Natal eu vi um milagre acontecer.
Aliás, não, não foi um milagre. Chamar milagre é desdenhar da qualidade técnica e dedicação da nossa equipe de Emergência do Hospital Federal Cardoso Fontes.

Eu estava visitando a Emergência por motivos pouco nobres. O setor estava lotado de gente em todo...s os cantos. Todas as macas, todas as cadeiras, todos os consultórios lotados. Não tinha mais onde atender quem chegasse. E continuava chegando gente.
Como representante da Direção, fui pedir aos pacientes classificados como verde, aqueles cuja clínica não os põem em risco de vida, que por favor procurassem outra unidade. É claro que quem procura a Emergência tem alguma coisa incomodando. Mas em situação limite, se tem que priorizar alguém, vai ser atendido primeiro quem tem mais gravidade. E os menos graves vão esperar. E chegou ao ponto em que não tinha previsão de atendimento dos menos graves.

Nisso entra um homem correndo com uma criança no colo. Estava em parada cardíaca. Para tudo. Chama toda a equipe. Chama a pediatra. Não temos Emergência pediátrica, mas uma situação dessas é irrecusável. E para quem conhece o Cardoso Fontes, a Pediatria não é "logo ali".

Muita gente entra na Medicina com o ideal romântico de salvar vidas. Eu não tenho estômago para isso. Nunca tive. Salvo vidas de outra forma. Diminuindo a progressão de doenças crônicas endócrinas. Mas uma criança sob risco iminente de morte, em parada cardíaca... não é para mim.

Mas eu não podia simplesmente sair. Encontrei o que fazer. Fui falar com o pai. Já tinha enfermeira falando com ele. Enquanto os primeiros socorros já estavam sendo prestados.

- O que aconteceu?
- Ela estava brincando na piscina. De repente a cabeça caiu e ficou embaixo d'água. Quando a gente viu, ela já estava roxinha.

Ela estava bem roxa. Os lábios. Os dedos. O coração não batia. Ela não respirava.

Tive que voltar para minha sala. Numa situação dessas, alguém que não ajuda só atrapalha.

Depois perguntei à chefe da Enfermagem, coordenadora administrativa da Emergência.

- E a menina... - temi prosseguir - ... morreu?
- Nãaaaaao! Conseguimos trazer ela de volta, e logo depois foi transferida para o Rios D'Or.

Obrigado, equipe da Emergência! Obrigado, Enfa. Elaine Vianna e demais profissionais que prestaram assistência à mocinha.

Agradecimento

Estou saindo para o almoço. Um rapaz me para na porta do Gabinete da Direção. Seu rosto me é familiar, mas não lembro a história.

- Obrigado, doutor!
- Eu lembro do senhor, mas não lembro do caso.
- Meu sogro...
- Ah sim! Ele estava na Emergência, não é?
- Sim! Eu vim aqui semana passada para pedir que adiantasse a tomografia que o médico pediu. ...
- E aí, como ele está?
- Ele faleceu ontem, na Enfermaria de Pneumologia.
- Sinto muito.
- Mas ele morreu sabendo que os médicos e a Enfermagem e toda a equipe, todos fizeram o que puderam por ele. Obrigado por tudo!

São demonstrações espontâneas assim que nos fazem acreditar estarmos no caminho certo.